O governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ampliou durante o segundo mandato a política de classificar organizações criminosas da América Latina como terroristas. A medida alcançou cartéis e facções de diferentes países e passou a incluir também duas das maiores organizações criminosas brasileiras: Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV).
A estratégia começou com a designação de oito grupos ligados principalmente ao narcotráfico e, nos meses seguintes, outras organizações foram incorporadas. O governo norte-americano argumenta que o enquadramento é uma ferramenta para combater o tráfico internacional de drogas e atingir as estruturas financeiras dessas organizações.
As classificações podem provocar consequências que vão além de uma mudança de nomenclatura. Nos Estados Unidos, elas permitem ampliar sanções financeiras, bloqueio de ativos e responsabilização relacionada ao fornecimento de apoio material aos grupos designados.
PCC e Comando Vermelho entraram na lista
No caso brasileiro, Washington anunciou neste ano a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas.
Segundo o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, o governo dos EUA considera que as duas facções mantêm redes criminosas que ultrapassam as fronteiras brasileiras e estão envolvidas em atividades como narcotráfico, assassinatos e extorsões.
A decisão adotou dois mecanismos jurídicos norte-americanos: a classificação como Organização Terrorista Estrangeira (FTO) e como Terrorista Global Especialmente Designado (SDGT).
A designação como FTO permite, entre outras consequências previstas na legislação dos EUA, criminalizar determinadas formas de apoio material à organização. Já o enquadramento como SDGT possibilita bloquear bens e interesses patrimoniais sujeitos à jurisdição norte-americana.
México concentra vários grupos atingidos
O México aparece com várias organizações alcançadas pela política adotada por Washington. Entre elas estão:
- Cártel de Sinaloa
- Cártel Jalisco Nueva Generación (CJNG)
- Cártel del Golfo
- Cártel del Noreste
- La Nueva Familia Michoacana
- Cárteles Unidos
O governo norte-americano relaciona essas organizações principalmente ao tráfico internacional de drogas, incluindo fentanil, metanfetamina e cocaína, além de crimes como extorsão, sequestro e lavagem de dinheiro.
Venezuela, Equador, Haiti e El Salvador
A política também alcançou organizações originárias de outros países latino-americanos e caribenhos.
Na Venezuela, estão entre os grupos designados o Tren de Aragua e o chamado Cartel de los Soles. Neste último caso, há controvérsia sobre sua própria caracterização: Washington associa o nome a integrantes da cúpula venezuelana, enquanto o governo da Venezuela rejeita as acusações. Especialistas citados pela CNN observam que a expressão pode descrever uma rede de autoridades supostamente corruptas, em vez de uma organização com estrutura equivalente à de um cartel tradicional.
No Equador, organizações como Los Choneros e Los Lobos também foram enquadradas. No Haiti, aparecem Viv Ansanm e Gran Grif, enquanto a MS-13 (Mara Salvatrucha), originada nos Estados Unidos e fortemente associada a El Salvador e outros países da América Central, também integra as designações promovidas pela administração Trump.
Classificação aumenta pressão financeira e jurídica
O enquadramento como organização terrorista amplia os instrumentos que os Estados Unidos podem empregar contra integrantes, financiadores e pessoas ou empresas que prestem determinados tipos de apoio aos grupos designados.
No caso da classificação SDGT, pessoas e entidades consideradas controladas pelas organizações ou que tenham fornecido apoio financeiro, material, tecnológico ou outros serviços podem ser alcançadas pelas sanções previstas pelas autoridades norte-americanas.
O Departamento de Estado sustenta ainda que as designações podem colaborar com ações de órgãos policiais dos Estados Unidos e de governos parceiros.
Política acompanha avanço das operações militares dos EUA
A mudança também ocorre enquanto Washington amplia sua atuação de segurança na América Latina e no Caribe.
Segundo levantamento citado pela CNN, desde setembro de 2025 as Forças Armadas norte-americanas realizaram pelo menos 75 ataques contra embarcações que os EUA afirmaram estar relacionadas ao transporte de drogas no Caribe e no Oceano Pacífico. Ao menos 227 pessoas morreram nessas operações, segundo a reportagem.
Especialistas ouvidos pela imprensa norte-americana já apontaram que a designação como organização terrorista pode anteceder medidas mais duras. Isso, porém, não significa que a classificação autorize automaticamente uma intervenção militar em outro país; eventuais operações dependem de outras bases jurídicas e das circunstâncias envolvidas.
A política adotada por Trump representa, portanto, uma mudança relevante na maneira como Washington enquadra parte do crime organizado latino-americano, aproximando instrumentos tradicionalmente associados ao combate internacional ao terrorismo das ações contra grandes facções e cartéis de drogas.


