A empresária Karina Ferreira da Gama, dona da produtora Go Up Entertainment, responsável pelo filme Dark Horse, registrou em cartório um documento no qual afirma ter recebido diferentes contatos relacionados à possibilidade de realizar uma delação premiada envolvendo o candidato Flávio Bolsonaro (PL).
O documento, obtido pela CNN, tem sete páginas e foi registrado em 4 de setembro, em São Paulo. Nele, Karina afirma que pretende continuar colaborando com as investigações, mas por meio de sua defesa e com a preservação de suas garantias legais.
A empresária está relacionada às apurações do Inquérito 5.070 e da Petição 16.070, que tramitam no Supremo Tribunal Federal (STF), além de procedimento policial relacionado à produção cinematográfica Dark Horse.
Empresária relata três contatos
Segundo o documento, Karina registrou três episódios que, na avaliação dela, estariam relacionados à possibilidade de uma colaboração premiada.
O primeiro teria ocorrido em maio e envolveria Fernando Sarney, filho do ex-presidente José Sarney. Karina afirma que ele teria oferecido apoio jurídico e mencionado possuir proximidade com o ministro Flávio Dino, além de dizer que poderia ajudá-la caso tivesse interesse em uma delação premiada.
A própria empresária, entretanto, ressalvou no documento que não possui elementos para afirmar que Dino soubesse ou tivesse qualquer participação nesse contato.
Fernando Sarney, por sua vez, negou a versão apresentada por Karina. À CNN, afirmou não conhecer a empresária e disse jamais ter mantido contato com ela ou com outra pessoa para tratar de uma suposta delação relacionada ao filme.
Segundo contato teria ocorrido em agosto
Karina também relata ter recebido, em 27 de agosto, uma ligação de um pastor que descreve como amigo de longa data.
Segundo a versão registrada pela empresária, o interlocutor teria afirmado possuir proximidade com integrantes do governo federal e ministros do STF e disse que pessoas ligadas a essas autoridades teriam pedido que apresentasse a ela a possibilidade de uma colaboração premiada.
Ainda conforme o relato de Karina, teria sido dito que, caso aceitasse fazer uma delação, ela não enfrentaria uma possível “complicação” nem seria alvo de operação policial.
A empresária afirma ter recusado a possibilidade por sustentar que a produção do filme foi conduzida dentro da legalidade e que não teria cometido crime.
Contato de jornalista também foi registrado
O terceiro episódio relatado ocorreu em 3 de setembro e envolve um jornalista da revista Piauí. Segundo Karina, ele teria mencionado anteriormente a possibilidade de uma delação e, posteriormente, afirmado que ela estaria “servindo de bucha de canhão para o candidato”.
A empresária interpretou a conversa como uma indicação de que poderia enfrentar medidas judiciais caso não colaborasse. Procurada pela CNN, a revista Piauí informou que não se manifestaria.
Karina diz temer eventual retaliação
No documento, Karina afirma que a proximidade entre os contatos e o fato de todos abordarem a possibilidade de uma delação provocaram preocupação sobre eventuais interferências externas em sua situação jurídica.
Ela afirma temer que possa ser alvo de uma operação policial por “retaliação política”, versão apresentada pela própria empresária e que não representa uma conclusão das autoridades ou comprovação de que tenha ocorrido pressão institucional.
Karina também deixa registrado que não pretende acusar autoridades ou outras pessoas de crimes sem provas. Segundo ela, o objetivo do documento é preservar cronologicamente os fatos que afirma ter vivenciado e permitir eventual verificação posterior pelas autoridades.
Leia abaixo a íntegra do documento registrado pela produtora Karina Gama:
DECLARAÇÃO CIRCUNSTANCIADA DE FATOS
KARINA FERREIRA DA GAMA, brasileira, empresária, inscrita no CPF nº 296.006.158-61, residente e domiciliada na Rua Haddock Lobo, n° 746, declara, para fins de registro, preservação de prova, resguardo de direitos e eventual apresentação às autoridades competentes, o que segue:
1 – DO CONTEXTO
Declaro que estou relacionada às apurações atualmente realizadas no âmbito do Inquérito nº 5.070, em tramitação perante o Supremo Tribunal Federal, e ao procedimento policial correlato referente à produção cinematográfica The Dark Horse. Também estou relacionada às apurações atualmente realizadas no âmbito da Petição nº 16.070, em tramitação perante o Supremo Tribunal Federal.
Desde que tomei conhecimento das apurações, minha postura has sido de integral cooperação com as autoridades competentes, inclusive mediante apresentação de documentos e esclarecimentos relacionados à produção cinematográfica e às atividades empresariais envolvidas.
Registro que pretendo continuar colaborando regularmente com as autoridades, sempre por intermédio e orientação de minha defesa técnica e com preservação integral das garantias constitucionais que me são asseguradas.
II – DO CONTATO RECEBIDO DO DR. FERNANDO SARNEY EM MAIO DE 2026
No dia 20 de maio de 2026, fui procurada pelo Dr. Fernando Sarney. Não o atendi naquela oportunidade, tendo o contato efetivamente ocorrido apenas no dia 22 de maio de 2026, às 9h07.
Durante a conversa, o Dr. Fernando Sarney ofereceu-me apoio jurídico e afirmou possuir grande proximidade com o Ministro Flávio Dino. Na mesma ocasião, declarou que poderia me apoiar caso eu tivesse interesse em realizar uma “delação premiada”.
Diante da abordagem, não manifestei interesse em realizar colaboração premiada, pois não identificava — e continuo não identificando — qualquer razão para adotar tal medida. Minha posição sempre foi a de esclarecer os fatos mediante a apresentação dos documentos pertinentes e o regular exercício do direito de defesa.
Registro que a referência à proximidade com o Ministro Flávio Dino partiu exclusivamente do próprio Dr. Fernando Sarney. Não presenciei qualquer conversa entre ambos e não possuo elementos próprios que me permitam afirmar que o Ministro tivesse conhecimento, participação ou envolvimento nesse contato.
III – DO CONTATO RECEBIDO EM 27 DE AGOSTO DE 2026
No dia 27 de agosto de 2026, às 11h22, recebi ligação telefônica de um pastor e amigo de longa data, que demonstrou preocupação com minha situação.
Durante a conversa, ele me afirmou possuir proximidade com pessoas integrantes do Governo Federal e com Ministros do Supremo Tribunal Federal. Relatou-me que teria conversado com pessoas ligadas a essas autoridades e que lhe teriam solicitado que entrasse em contato comigo para transmitir a possibilidade de realização de uma “delação premiada”, apresentada, segundo suas palavras, como uma forma de me retirar do risco de uma possível “complicação”. Segundo o interlocutor, se eu fizesse uma “delação premiada”, nada ocorreria comigo e eu não seria alvo de nenhuma operação policial.
Diante dessa afirmação, agradeci sua preocupação, mas respondi que não identificava razão para realizar colaboração premiada, uma vez que minha postura sempre foi e continua sendo a de cooperar integralmente com os esclarecimentos solicitados pelas autoridades.
Também manifestei minha convicção de que os projetos empresariais e a cadeia de produção cinematográfica da qual participei foram conduzidos dentro da legalidade, razão pela qual entendo que os fatos devem ser esclarecidos mediante a apresentação da documentação pertinente e o regular exercício do direito de defesa, não havendo motivo para qualquer delação premiada, afinal, não cometi nenhum crime.
IV – DO CONTATO POSTERIOR DO JORNALISTA
Posteriormente, em 3 de setembro de 2026, recebi novo contato do jornalista Breno Pires, da Revista Piauí.
O referido jornalista já havia anteriormente formulado questionamentos relacionados à possibilidade de eu realizar uma delação premiada, no sentido de me incentivar a realizar tal procedimento.
Nesse novo contato, afirmou que eu estaria “servindo de bucha de canhão para o candidato”, em aparente referência ao contexto político relacionado aos fatos atualmente investigados, dando a entender que, se eu não fizesse nenhuma colaboração premiada, eu poderia ser alvo de medidas judiciais.
Registro esta afirmação exatamente pela relevância que adquiriu quando considerada em conjunto com o contato recebido em 27 de agosto e diante da matéria jornalística feita por Breno Pires, com insinuações de irregularidades (que nunca existiram) com relação à produção do filme Dark Horse.
V – DO RECEIO GERADO PELOS ACONTECIMENTOS
A proximidade temporal e a convergência temática entre esses contatos causaram-me preocupação e fundado receio quanto à possibilidade de que minha situação jurídica venha a sofrer interferências ou pressões externas de natureza política, especialmente diante da referência feita à celebração de colaboração premiada como meio para evitar uma possível “complicação”.
Segundo o contexto que me foi apresentado por tais interlocutores, se eu não fizesse uma delação premiada, assumindo que alguma irregularidade teria ocorrido na produção do filme, o que seria equivalente a dizer mentiras, eu poderia ser alvo de operações policiais contra a minha pessoa. Como não cometi nenhuma irregularidade e como não fiz nenhuma delação premiada, tenho receio de que alguma operação policial possa ser realizada contra a minha pessoa por retaliação política e não porque cometi algum ilícito.
E estou registrando aqui aquilo que efetivamente me foi comunicado por terceiros, justamente para preservar contemporaneamente os fatos e permitir sua posterior verificação pelas autoridades competentes, caso necessário.
VI – DA MINHA POSTURA PERANTE O INQUÉRITO
Reafirmo que não tenho intenção de me furtar à investigação.
Tenho residência conhecida, atividades profissionais e empresariais identificadas e permaneço à disposição das autoridades para prestar os esclarecimentos legalmente cabíveis.
Não tenho intenção de fugir, ocultar documentos, destruir provas, interferir em depoimentos, constranger testemunhas ou praticar qualquer ato destinado a prejudicar a investigação.
Ao contrário, venho providenciando, com minha defesa, documentos destinados ao esclarecimento dos fatos.
Entretanto, considero importante registrar que minha disposição em cooperar com as autoridades não representa renúncia aos meus direitos constitucionais, inclusive ao direito ao silêncio, à não autoincriminação, à assistência por advogado, ao devido processo legal e à liberdade de decidir, de forma livre e voluntária, sobre qualquer eventual proposta de colaboração premiada.
VII – DA FINALIDADE DESTA DECLARAÇÃO
Faço a presente declaração de maneira livre, consciente e espontânea, com a finalidade de produzir registro contemporâneo dos acontecimentos acima narrados e preservar meus direitos.
O registro também objetiva documentar que, antes de qualquer eventual medida futura que possa atingir minha liberdade, já havia recebido comunicação de terceiro relacionando a possibilidade dessa medida futura (uma “complicação”) ocorrer, caso eu não realizasse uma delação premiada à proposta de realização de delação premiada.
Não pretendo, por meio desta declaração, acusar qualquer autoridade ou pessoa da prática de ilícito sem provas.
Pretendo exclusivamente registrar fatos, datas, comunicações recebidas e minha própria resposta, para que exista documentação formal e cronologicamente anterior a qualquer eventual acontecimento posterior.
Reafirmo, finalmente, minha disposição de cooperar integralmente com as autoridades competentes para o esclarecimento dos fatos relacionados ao Inquérito nº 5.070, observadas as garantias constitucionais e legais inerentes a qualquer pessoa submetida a investigação.
Por ser esta a expressão fiel dos fatos conforme por mim vivenciados e das comunicações que me foram transmitidas, firmo a presente declaração para todos os fins de direito, autorizando seu registro perante o competente Cartório de Títulos e Documentos e sua eventual apresentação às autoridades judiciais, policiais ou ministeriais, caso se mostre necessária.
São Paulo, 3 de setembro de 2026.
KARINA FERREIRA DA GAMA



