Um laudo complementar do Instituto de Criminalística de São Paulo descartou a hipótese de suicídio na morte da soldado da Polícia Militar Gisele Alves Santana, de 32 anos, e apontou a intervenção de uma segunda pessoa. A policial foi encontrada morta com um tiro na cabeça, em fevereiro deste ano, no apartamento onde morava, no bairro do Brás, região central de São Paulo.
O documento foi assinado na terça-feira (1º) e complementa perícias realizadas anteriormente. A análise considerou padrões de manchas de sangue, fotografias, vestígios encontrados no imóvel e outros elementos materiais para reconstruir a dinâmica da morte.
Segundo a perícia, os elementos encontrados no apartamento são incompatíveis com a hipótese de que Gisele tenha tirado a própria vida. A avaliação também não identificou elemento material capaz de afastar a hipótese de participação de outra pessoa.
O tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, então companheiro de Gisele, é réu por feminicídio e fraude processual. Ele permanece preso preventivamente e nega ter assassinado a policial. A conclusão pericial sobre a natureza da morte não representa, por si só, uma decisão definitiva sobre a autoria do crime, que será definida pela Justiça.
Gisele foi encontrada com tiro na cabeça
Gisele foi encontrada morta em 18 de fevereiro de 2026 no apartamento onde vivia com Geraldo Neto. O tenente-coronel estava no imóvel, acionou o socorro e inicialmente relatou às autoridades que a mulher teria cometido suicídio.
Com o avanço das apurações, a ocorrência passou a ser tratada como morte suspeita e posteriormente resultou em investigação por feminicídio.
Perícias realizadas ainda no início da investigação já haviam encontrado elementos que colocavam a versão inicial sob questionamento.
Laudos do Instituto Médico Legal identificaram lesões na face e na região cervical de Gisele. As marcas foram descritas tecnicamente como decorrentes de pressão digital e escoriações compatíveis com unhas.
Outro elemento considerado durante a investigação foi o intervalo entre o disparo e o pedido de socorro. Uma vizinha declarou ter ouvido um tiro às 7h28, enquanto o acionamento do Copom ocorreu às 7h57, aproximadamente 29 minutos depois.
Análise das manchas de sangue reforçou conclusão
O novo laudo foi produzido pelo Núcleo de Perícias em Crimes Contra Pessoa do Instituto de Criminalística para responder a questionamentos apresentados pela defesa do tenente-coronel.
A perícia analisou conjuntamente os vestígios disponíveis, especialmente os padrões formados pelas manchas de sangue encontradas no local.
A conclusão técnica foi de que esse conjunto de elementos contradiz a possibilidade de um evento suicida e sustenta a existência de intervenção de uma segunda pessoa na morte.
Perícias anteriores citadas no processo também apontaram que Gisele teria sido imobilizada antes de receber o disparo. Uma das análises indicou que ela teria sido segurada pelo rosto enquanto a arma era direcionada contra a região direita da cabeça.
Ministério Público acusa tenente-coronel de feminicídio
Geraldo Neto foi preso em março, cerca de um mês depois da morte da policial, e posteriormente se tornou réu.
De acordo com a acusação do Ministério Público, o tenente-coronel teria assassinado Gisele e depois tentado modificar a cena para fazer a morte parecer suicídio. O MP também sustenta que a arma teria sido posicionada na mão da vítima. Essas circunstâncias fazem parte da acusação apresentada contra o réu e ainda serão submetidas ao julgamento, não devendo ser tratadas como condenação definitiva.
O Superior Tribunal de Justiça manteve a prisão preventiva do oficial. Ele permanece detido no Presídio Militar Romão Gomes, na capital paulista.
Defesa contesta perícia e réu nega crime
A defesa de Geraldo Neto contesta aspectos da perícia e sustenta que o tenente-coronel não matou Gisele.
Nesta sexta-feira (4), houve uma nova mudança no andamento do processo. O interrogatório do réu, que estava previsto para 8 de setembro, foi adiado para 5 de outubro, após a defesa solicitar complementação do trabalho pericial. A Justiça concedeu prazo de 20 dias para a nova análise.
A família de Gisele, por sua vez, sustenta desde o início que a policial não cometeu suicídio.
O novo laudo fortalece tecnicamente a conclusão de que a morte foi provocada pela ação de outra pessoa. A responsabilidade criminal individual pelo assassinato, entretanto, será definida no processo judicial, respeitados o contraditório, a defesa do réu e a decisão da Justiça.



